quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Retomando

Este blog estava meio parado mas agora voltaremos a postar. Entretanto, não mais somente os programas mas também alguns conteúdos que considerarmos relevantes. Segue um texto do colega Ricardo Dal Forno elaborado para expôr aos alunos do Ensino Médio participantes do Profissional do Futuro.


Da Palha ao Ouro
Aprendemos estudando Filosofia que não se pode expor uma questão num curso de Filosofia sem estar implicado nesta questão. Não se pode, em Filosofia, interrogar um tema sem ser por ele interrogado. Perguntar por que decidimos estudar Filosofia é certamente uma questão filosófica. Então, mesmo que se tratando de algo subjetivo, talvez a resposta para a pergunta “o que leva alguém a estudar Filosofia?” possa ser buscada se pensarmos a origem da Filosofia. A Filosofia – “grega em sua essência” como disse Heidegger, pois primeiro ela se apoderou do mundo grego e lá se desenvolveu – não surgira como única forma possível de explicação. Foi necessário que as explicações mitológicas não mais satisfizessem alguns homens para que as perguntas filosóficas surgissem. Se começa a filosofar, portanto, por uma “insatisfação” com a realidade normalizada, por um “descontentamento” com o instituído, por um sentimento de falta, por um desejo de sair de determinada situação que não mais nos satisfaz para buscar uma nova. Trata-se de “angustiar-se”, de entrar em “crise”, mas não no sentido pejorativo que estas palavras adquiriram hoje em dia, mas apenas como “busca por nova capacidade de julgar e compreender”.

Assim como os gregos antigos se depararam com os Poetas – portadores de verdades divinas, e com Deus não se discute – e os Sofistas – que para tudo possuíam uma explicação imediata e compreensível para qualquer um –, também hoje nós nos deparamos com novos poetas e novos sofistas, que na televisão, nos jornais, no senso-comum, nas revistas, nos bares, nas boates, na família, nas igrejas, nas músicas, no cinema, nos livros, nos dão respostas simples e divinas sobre os mais variados problemas, onde não nos restaria mais nada que não seja a aceitação passiva. Se antes as idéias estavam elevadas no céu de Platão, agora elas se encontram jogadas pelo chão, e basta tropeçarmos para encontrarmos soluções. É, talvez, com esse mundo de respostas fáceis que se deva estar descontente para se iniciar nos estudos de Filosofia. Talvez seja pelo céu de Platão que se sinta falta – mesmo que na idade de se escolher um curso universitário não se saiba quem foi Platão. É com esse mundo que transcorre cotidianamente sem maiores problemas, onde todas as cartas já parecem ter sido jogadas de antemão – o que torna tudo tão “simples” e “legal” – que, talvez, se deva estar insatisfeito, na busca por um momento de crise, que permite uma capacidade superior de julgamento e compreensão.

Pode também servir de exemplo o caso de Sócrates, que não satisfeito com as explicações dadas por seus concidadãos, lhes interrogava, para descobrir se eles realmente sabiam o que diziam que sabiam. Quando, por exemplo, dialogava com um general que pensava saber o que era a coragem, e ouvia deste general sua explicação, Sócrates, não se contentando com tal explicação, iniciava um questionamento mais profundo, como se perguntasse: “será que isto que você me diz ser “coragem” é realmente a coragem?”.

Podemos hoje também ficar insatisfeitos e perguntar coisas do tipo: será que isto que a novela da televisão diz ser amor é realmente o amor? Será que a felicidade vendida pelos livros de auto-ajuda é realmente a felicidade? Será que a padronização do comportamento, os valores da diversão infantilizada, do gozo rápido, da velocidade narcisista, propagados por todos os lados, constituem uma vida que vale a pena ser vivida? Será que a idéia comumente aceita do trabalho alienado, onde tudo é somado pelo ideal do lucro e do acúmulo, onde não resta para o homem qualquer relação mais profunda com seus fazer, é o trabalho mais digno? Será que o ideal do corpo perfeito, difundido pelos meios de comunicação em massa, a melhor forma de tratarmos nós mesmos? Será a sociedade de consumo em massa, como somos costumeiramente levados a crer, a melhor forma de se viver? Outras tantas perguntas poderiam ser acrescentadas.

Vemos, portanto, que o interesse de alguém por ingressar nos estudos filosóficos é gerado por um descontentamento, uma falta, que se traduz em perguntas, isto é, se pergunta pelo além do instituído, numa busca de algo que supera as repetições costumeiras, perguntas que possibilitariam um novo compreender, pois o antigo compreender já não satisfaz, assim como as explicações mitológicas não mais satisfaziam os primeiros filósofos.

Uma frase do filósofo Maurice Merleau-Ponty tornou-se uma espécie de epigrafe do curso de Filosofia da UNIJUÍ: “A verdadeira Filosofia é reaprender a ver o mundo”. É também conhecido o fragmento do pré-socrático Heráclito que diz: “os asnos prefeririam a palha ao ouro”.

O asno de Heráclito prefere a palha porque sucumbe ao que já está instituído e normalizado, ou seja, sucumbe a forma já aceita de ver o mundo. Assim o asno prefere a palha sem saber o que é o ouro, pois para ele basta o que é costumeiramente fixado como convencional, isto é, a palha. O asno não filosofa, não reaprende a ver o mundo, então se contenta com a palha que lhe é oferecida, sem saber que para além da palha existe o ouro. Tudo o que nos é dado cotidianamente, todas as respostas já prontas, todas as explicações que nos batem à cara, como aquelas que citamos aqui, são como a palha do asno. O general que dava para Sócrates uma definição qualquer de coragem lhe oferecia tal palha, porém Sócrates perguntava pelo ouro. Todas as perguntas feitas acima são como uma busca pelo ouro que existe para além da palha que nos é oferecida. E reaprender a ver o mundo é perguntar pela existência do ouro para além da palha. Talvez, mesmo que confusamente e só possível de elaboração futuramente, seja este reaprender a ver o mundo que leve alguém a procurar um curso de Filosofia, talvez uma insatisfação com a palha que lhe é oferecida possa o levar a perguntar pelo ouro. Talvez se comece o interesse pela Filosofia perguntando: o que existe para além disso que você chama “palha”?